Lendas e Segredos

Há excelentes lendas girando em torno da fabricação de shofar, que é uma arte complicada e intrincada, cheia de segredos e mistérios. Geralmente, a profissão era restrita a certas famílias, que passaram os segredos da manufatura de pai para filho. Assim, os segredos eram mantidos e as lendas foram criadas…

Negócio Familiar – Dinastia de Produtores de Shofar

A produção de shofar, assim como tocá-lo, não é um empreendimento fácil de se estabelecer. Com exceção de alguns detalhes, shofars são feitos da mesma maneira há muitos anos e ao que parece, as máquinas eletrônicas não substituirão os artesãos num futuro próximo.

Pouquíssimas famílias tratam da produção de shofar no mundo. Em Israel, há dois principais produtores industriais de shofar, que juntaram forças há alguns anos, tornando-se os responsáveis pela produção da maior parte dos shofars usados nas sinagogas e escolas religiosas de Israel e ao redor do globo. Alguns indivíduos também fazem shofars em casa, mas apenas como hobby, sem intenção comercial.

A Família Bar- Sheshet

A família Bar-Sheshet começou a produzir shofars há 15 gerações. No ano 1345, um rabino chamado Yitzhak Bar-Sheshet começou a fabricar shofars na Espanha. Também o nome da família “Bar-Sheshet” tem 15 gerações, originário do pai do rabino Yitzhak, que costumava anunciar o início do Shabat nos bairros judeus, e por isso era chamado “Sheshet” – aquele que anuncia o final dos seis dias de trabalho. Seu filho, Yitzhak, que era produtor de shofars, foi posteriormente chamado de rabino Yitzhak Bar (filho do) Sheshet. Eventualmente o nome tornou-se permanente e ficou como a denominação familiar dos produtores de shofar até os nossos dias.

Após a expulsão dos judeus da Espanha, a maior parte da família se estabeleceu no Marrocos, onde continuou a produzir shofars, até o século XX, quando Meir Bar-Sheshet fez aliá no navio Exodus. Os britânicos enviaram estes imigrantes ilegais de volta para um campo de detenção na Alemanha, onde Meir Bar-Sheshet fez seu primeiro shofar fora do Marrocos.

Conto de um shofar

Aproximava-se a véspera do Rosh Hashanah e não havia shofar no campo de detenção. Após um grande esforço, os detentos conseguiram coletar 30 marcos alemães e compraram um carneiro. Meir Bar-Sheshet reconta:

“Muitas pessoas me olhavam, como eu amaciava os chifres, extraía o osso e fazia o polimento. Todos aguardavam o shofar para fazermos o Tekiah. Finalmente, dois shofars foram preparados, um para o campo onde estava com meus novos amigos, e outro que conseguimos fazer chegar até o campo vizinho. Quando tocamos os meus shofars aquele ano, todos os fiéis pediram a Deus que se recordasse do Sacrifício de Isaac. Com os corações cheios de saudades, rezamos:

“Nosso Senhor e Senhor de nossos pais, toque o shofar por nossa liberdade, reúna os dispersos desde o fim da Terra e nos traga com alegria a Sião, Sua cidade, numa canção alegre”

Quando Meir Bar-Sheshet finalmente chegou em Israel, dirigiu-se ao Muro das Lamentações e tocou o shofar. Aquele shofar está guardado com seu filho, Zvika, até o presente.

Meir Bar-Sheshet estabeleceu-se na cidade de Haifa e voltou a produzir shofars. Atualmente, mais de 670 anos após a fundação do negócio familiar na Espanha, o filho de Meir, Zvika Bar-Sheshet, continua a tradição de produção de shofars para comunidades judaicas de Israel e do exterior.

Um Segredo Profissional

No coração da Rua Herzl, entre luzes brilhantes e vitrines de lojas, está o ateliê Bar-Sheshet. De fora, assemelha-se a uma loja de artigos religiosos. Uma porta lateral leva ao segundo piso, subindo-se uma escadaria circular e sinuosa. O ateliê não é maior que um quarto de uma casa padrão, com uma dependência adjacente, onde acontecem os estágios da produção do shofar.

Entrar no ateliê exige uma permissão especial, que não é concedida facilmente. Quem entrar ali verá centenas de chifres em estado bruto, o chão coberto de camadas de poeira e o ar com odor de carne assada. As prateleiras estão cheias de shofars em diferentes estágios de produção. Além da maquina de afiar, todos os demais instrumentos são bem simples, improvisados pela família: um torno, mais antigo que a pessoa que o manuseia, e várias ferramentas manuais. Nesta profissão, diz Zvika, “cada um cuida de seus próprios instrumentos, pois não podem ser comprados. Ninguém fabrica estas ferramentas. A família é que as produziu através dos anos para realizar este trabalho”.

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